Sem sentido

O sentido da vida sempre foi um desassossego para nós, seres humanos.
“De onde viemos?”, “para onde vamos?” e “o que fazemos aqui?” são questões que nos rondam e vamos tentando contorná-las com algo, um sentido.
Lendo o livro “Tudo é rio”, da Carla madeiro, um trecho me fez associar sobre esse desassossego existencial e a angústia presente quando algo inesperado irrompe na vida, desfazendo toda a suposta ilusão de estabilidade e certezas, o mundo presumido ruindo – conceito herdado dos estudos sobre luto.

“De que é feita então a justiça divina? De mistérios que devemos engolir como saliva? Se Deus sabe o que faz, e sempre faz o que quer, para que servem a prece e o fervor de quem suplica? Será um capricho nos querer ajoelhados? A vida revela sem constrangimentos que alguns são ouvidos, outros não. Acaso não somos todos iguais diante do Senhor? Se o exemplo vem de Deus, se devemos buscar ser sua imagem e semelhança, que exemplo Deus nos dá quando uns se tornam mais merecedores do que outros? Não estaria a justiça divina inspirando a injustiça humana?” (pg.62)

Nesse trecho nos deparamos com a perda de um filho por uma mãe e o questionamento que se faz diante do desamparo e do sem sentido da vida. Ora, o sentido não seria que pais morreriam primeiro? Sentimos sua angústia.

Que destino damos para isso que nos acontece e parece esfregar em nossa cara que não há algo pronto?

Lacan tem um conceito (que pode ser) difícil de entender que é o do Real. Ele dá esse nome exatamente para esse sem sentido ao qual não temos acesso, se não por meio da linguagem, e esse não é um acesso direto. Ele é o que é e “ao Real não falta nada”, ouvi em uma aula.
Quando algo irrompe e nos dá notícias desse indizível, fazemos contato com algo do nosso desamparo e buscamos recursos para lidar com o que se apresenta.

O que ou quem nos ampara quando o desamparo nos bate à porta?

A religião e/ou a espiritualidade, por exemplo, nos ajudam na construção desses sentidos e nos abrigam do desamparo que nos cerca, sendo ele fundante e estrutural ou como contingências da vida. Em alguns momentos esses recursos são colocados à prova como no trecho citado. É no momento da eventualidade, fato inesperado, que o desamparo do qual não temos tantas notícias se escancara.

O anseio por bordejar esse pântano que não conseguimos entender é tão necessário quanto suportar que nem tudo terá sentido. A análise é um outro lugar onde “aprendemos” (não sei bem se essa seria a palavra, mas tá valendo) a lidar com esse sem sentido da vida. Esvaziar os sentidos que estão muito cheios, enrijecidos é uma das direções da análise, podemos pensar. E o que eu acho mais interessante é que precisamos ao mesmo tempo dar o sentido e viver sem tanto sentido. Esses paradoxos tão lindos da vida humana.

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Claudia Borges

Sou Claudia Borges, psicóloga e psicanalista, especialista em saúde materno- infantil, perinatalidade e parentalidade. Atendo famílias, pais, casais e também ofereço suporte para profissionais que trabalham nessas áreas. Atendimento online e presencial, na cidade do Rio de Janeiro.

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