Na clínica tem um aprendizado muito difícil de se assimilar: não sabemos da experiência do outro. Isso é difícil, pois existem mecanismos que nos fazem caminhar para esse lado. Mas veja bem, isso não é necessariamente ruim e inclusive, em determinados momentos da vida, precisamos dessa ideia de que sabemos o que o outro vive ou sente, somos nós que ajudamos a constituir essas experiências, como no caso dos cuidadores de bebês. É importantíssimo que eles façam essas suposições e nomeiem para os pequenos. Mas, aí já temos uma marca que faz toda a diferença: esse saber é uma suposição e por mais que se tenha como crença, se aposte nele, não há a rigidez intolerável.
Pois bem, voltando ao que vim para dizer, na clínica essa experiência é altamente necessária, quero dizer, essa descrença de que sabemos o que o outro vive. Nós podemos nos aproximar, fazer hipóteses, sentir com intensidade, mas nunca saberemos o que o outro vive e essa deve ser a radical solidão que cada um como ser humano vive. Escrevendo assim, parece trágico, mas é condição. E na clínica é preciso atenção a isso para que a experiência seja escutada em sua singularidade.
Pense bem, nem os mesmos eventos são vividos da mesma forma, mulheres vivendo a maternidade, pacientes com o mesmo diagnóstico, uma experiência social monumental como a covid, nada disso é vivido do mesmo jeito pelas pessoas e só sabemos de cada um, através do seu dizer. Há pontos em comum, sim. Há proximidade, sim. Mas, no âmago, não há o saber sobre a experiência do outro.
Ainda sobre esse ponto e a clínica, lembro de uma discussão em um dos grupos de estudos sobre “o que é mais fácil, atender alguém que tenha passado ou passa pelo mesmo que você (analista/terapeuta) ou algo diferente?” O fato de não ter passado por determinada experiência não garante que não se tenha um saber sobre ela. Vamos pegar a maternidade como exemplo. Posso não ser mãe, mas isso não impede que eu pense que saiba quando uma pessoa diz algo sobre sua maternidade e esse é o perigo. No entanto, se estou atenta e ouço diferentes mães e mulheres, é fácil de perceber que a forma como se passa pela experiência é bastante singular.
Reduzir as crenças imaginárias e os ideais facilitam o caminho, é prudente que o analista esteja despido do seu saber imaginário para que a escuta do que interessa possa se dar. E se despir desse imaginário não é tão simples, mas é possível. O caminho que conhecemos é o da análise pessoal, estudo teórico e supervisão e mesmo assim não está garantido, sinto dizer.

