Minha Avó e Narrativas

Esfinge

Eu me contava a história de que escolhi psicologia porque um dia, na recepção de um médico, li em uma entrevista da Sandy (cantora) que ela pensava em fazer esse curso, pois gostaria de entender o comportamento humano. Tá, não sei se foi bem isso, mas foi por aí.

Acontece que isso me fisgou e de uma profissão que desconhecia, já que não tinha ninguém na minha família que era psicólogo, na verdade ninguém do meu círculo, eu escolhi ser psicóloga.

Esse preâmbulo para contar que mudei um pouco a narrativa e é aí que entra a minha avó.

Minha avó era uma pessoa diferente. Ela não era uma avó fofa e cuidadosa, como se supõe que as avós sejam (os velhos ideais), essa pessoa era minha bisavó (que não era a mãe dela e sim do meu avô, mas morávamos todos juntos). Ela era divorciada em uma época que não era comum se divorciar, era funcionária pública e detestava qualquer coisa referente a cuidados com a casa. Além disso, ela era adicta de medicação, jogava na loto e vivia falando de sonhos que viravam explicações, que viravam números, que viravam jogos na loto. Uma mulher diferente já disse. Junto à isso, era uma mulher angustiada, hoje vejo assim. Muito sensível e um pouco exagerada para algumas coisas. Ela conseguia ir na igreja, chamar uma benzedeira para jogar pipoca na gente (as netas) e falar de santa bárbara que era Iansã, que aliás só fui entender do que se tratava já adulta. Me lembro das vezes que ela ouvia o Bolero de Ravel, falava da esfinge e de astrologia: “lembre que touro é um dos signos fixos que compõe a esfinge” (cabeça de aquário, corpo de touro, garras de leão e rabo de escorpião) e eu, no auge da minha infância, prestava atenção em tudo sem assimilar exatamente o que se dizia.

Minha avó me causou, ela era um enigma. Quem era aquela mulher?

Hoje eu penso que esse enigma tem relação com a busca que fiz pela psicologia. Boa parte está em mim e na minha inquietação, na percepção que tive daquilo que se apresentou para mim, mas acho bonito pensar que aquela mulher diferente e nosso encontro fez uma marca tão importante.

Digo isso também pensando em como as narrativas marcam nossa existência, a narrativa sobre minha avó já foi mais difícil e dolorida. Mudar a forma com que se conta as histórias faz diferença na vida. E aqui me lembro do livro da Chimamanda – “O perigo de uma história única” deixo como indicação, pois vale a leitura.

Como vocês contam as suas histórias?

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Claudia Borges

Sou Claudia Borges, psicóloga e psicanalista, especialista em saúde materno- infantil, perinatalidade e parentalidade. Atendo famílias, pais, casais e também ofereço suporte para profissionais que trabalham nessas áreas. Atendimento online e presencial, na cidade do Rio de Janeiro.

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