A partir da leitura do livro da Vera Iaconelli, Manifesto antimaternalista, da editora Zahar, encontramos diferentes argumentos para pensar em como o discurso maternalista foi se construindo ao longo do tempo.
O livro nos apresenta algo que pode parecer óbvio, mas que de óbvio não tem nada: o gestar, a parentalidade e o cuidar não são atos e funções conectadas por natureza, como querem nos fazer acreditar.
Eu posso gestar, assumir a parentalidade e o cuidado
Eu posso gestar e não assumir a parentalidade e o cuidado
Eu posso não gestar e assumir a parentalidade e o cuidado
Eu posso gestar, assumir a parentalidade e não cuidar
Eu posso não gestar, não assumir a parentalidade e assumir o cuidado
Quais outras formas são possíveis? (complete com todas as formas que você conhece ou já viveu)
A junção de tudo em um formato absoluto é colocado por Vera como aquilo que circula, através dos discursos vigentes, como o padrão a ser (per)seguido, o padrão ouro de referência: a parentalidade biológica, branca, heterossexual. A família margarina, em última instância.
Aqui, a ideia é poder pensar que esse padrão coloca à margem todas as outras formas de configuração no campo da parentalidade e que, sabendo que esse é um campo político (políticas de reprodução), devemos nos perguntar: à quem interessa manter o discurso do padrão ouro vigente?
Para sair do campo teórico, vamos pensar nas implicações práticas que isso tem quando falamos em temas como aborto, entrega voluntária, adoção, reprodução medicamente assistida, definição judicial de cuidados em caso de separações e mortes, implicações no cuidado de pessoas idosas.
Será que seria interessante obrigar um filho- que tem como genitor alguém que assumiu a parentalidade, mas não o cuidado- a cuidar desse genitor na velhice? Como solucionar esse problema? Será que, necessariamente, a pessoa que gestou e pariu, precisa ser a mesma pessoa que vai cuidar de uma criança em caso de morte do outro genitor? Essas são algumas questões que se apresentam e que podem ter diferentes respostas, de acordo com a forma com que entendemos essa junção/disjunção entre genitoridade – parentalidade – cuidado.
Todos esses campos são atravessados pela ideologia que circula sobre o grande guarda-chuva do tema da parentalidade.
Um dos pontos mais importantes do livro da Vera é mostrar como essa junção foi construída e fazer a disjunção da mesma, apontando que nesse campo também estamos falando de um modo social e cultural de viver essa experiência que não é inata, como pode parecer num olhar mais superficial.
Você já tinha pensado sobre isso?

